Agora o futuro era incerto.
Acordaria na manhã seguinte, e já de pé com os pés descalços no chão gelado lembraria. Não há o que fazer. Ninguém para dizer "bom dia" e para conversar durante o café ou para elogiar o bolo de fubá.
Então, levaria o cachorro para passear. Era tedioso. Olhou para o relógio e disse ao cachorro - como você é chato, seu tempo acabou - "como se ela fosse muito simpática" pensou o cachorro que preferiu abanar o rabo no caminho de volta pra casa.
E sentada na poltrona de seu pai, que ficava em frente a estante de livros e discos, tomou chá amargo e muito quente. Já tinha lido metade daqueles livros, e tinha dançado as músicas daqueles discos, com os pés sobre os de seu pai que era um ótimo dançarino, terrivelmente encantador de voz rouca e gentil apesar de estar quase sempre sério.
Quis avidamente dançar um daqueles discos, e colocou na vitrola, um disco escolhido ao acaso. Seus pés ainda lembravam dos passos, do ritmo, fechou os olhos e por um momento sentiu que seu pai a guiava na dança, como quando era apenas uma menina.
Percebeu que não dava para dançar sozinha, quando abriu os olhos. Voltou à poltrona, e ao chá amargo e agora frio. E pensou que com os anos ficaria assim como o chá, amarga e fria.
Nenhum comentário:
Postar um comentário