quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Meus oito anos

A luz do sol, me queima os olhos que não consigo abrir.
As cortinas estão abertas, eu estava com a roupa de ontem,
sobre a cama que nem fora desfeita.
Minha boca e lábios estão secos, minha cabeça doe. Dormi demais, pensei
e comprimindo os olhos tropecei até chegar a cortina, devia ser tarde. Fechei as cortinas, o quarto ficou escuro - hum - fui para o banheiro, abri a torneirame arrepiei com aquela água fria, lavei meu rosto, amassado, inchado e velho.
Fazer xixi -que bonitinho, fez xixi sozinha! minha mãe falando comigo- de manhã, é sempre o ponto alto de filosofia barata, você fica lá sentada enquanto vaza de você tantos litros, no meu caso de tequila, aí você espera escorrer tudo, encontra uma posição confortável, vai te dando aquela preguiça, de domingo após o almoço, minhas pernas começaram a formigar então, levantei-me. Voltei ao quarto, despi-me e como sempre, meu pijama estava em cima da velha poltrona., já vestida, estava andando pelo apartamento à procura.
Senti-me mal, senti um vazio talvez fosse fome. Na cozinha, perdi a vontade de comer. Senti-me mal novamente, sufocada, sai do apartamento e sem perceber deixei a porata aberta,desci ao condominío, do jeito com estava cabelo sem pentear, e chinelos. Evitei descer de elevador, fui de escada. Abri a porta do sanguão e dei de cara com uma brisa fresca, que me pôs a fechar os olhos, ao abri-los vi uma menina, loura vestida com jardineira laranja, descalça correndo pelo jardim do prédio. Corria em volta de uma balança, de ferro, com a pintura vermelha e amarelo descascando, entre seus risos e os gritos da sua mãe que não me notou. Naquele momento eu entrei em choque, aquela cena me remetera lembranças de minha infância.
Fiquei assustada, tudo começou a girar, e nada tinha sentido. Subi ao meu apartamento,.. tentei beber um copo da água, mas estava tremendo, deixei-o cair. O vazio, que antes sentira agora estava maior., Desmaiei.. pouco depois comecei a sonhar [..
eu tinha voltado aos meus 8 anos, estava na frente da casa onde passei minha juventude, do meu lado esquerdo, os lençóis úmidos e cheirosos que minha mãe estava estendendo, no varal de bambu, refrescavam o ar, à minha direita a árvore, frondosa e alta que possuia um grande galho estirado a frente, fora idéia do meu pai fazer um balanço de madeira, e pendurá-lo ali. O Balanço era feito de tiras de madeira, que eram amarradas por uma corda grossa e cumprida, que ia até o galho da árvore. Eu podia ver meu pai, em um canto da varanda, na sua cadeira de balanço com o jornal no colo, a cabeça recostada na cadeira, estava tirando um cochilo.
Eu estava com um vestido amarelo, meus cabelos eram longos e estavam trançados, mas agora já se desfaziam, conforme eu corria e caia no chão, sujando a minha roupa, meus pés descalços.
Ah, a felicidade eu já nem me lembrava, daquele vazio que tinha me preenchido, aquela tarde. Brincava, sorria, e cantava.
Até que parei de brincar, e agora estava encarando o balanço, e ele a mim. Comecei a anda em volta do balanço, como em uma dança sedutora, nós nos entreolhavamos, passava meus dedos entre suas tiras de madeira, subia minha mão até sua velha corda, segurei-a com força.
Em poucos segundos, eu estava em pé sobre o balanço, o vento me empurrava eu quase conseguia tocar as nuvens do céu.

Mulher de fases


"Escrevo por não ter nada a fazer no mundo: sobrei e não há lugar para mim na terra dos homens. Escrevo porque sou um desesperado e estou cansado, não suporto mais a rotina de me ser e se não fosse a sempre novidade que é escrever, eu morreria simbolicamente todos os dias. Mas preparado estou para sair discretamente pela porta dos fundos. Experimentei quase tudo, inclusive a paixão e o seu desespero. E agora só quereria ter o que eu tivesse sido e não fui."

(Clarice Lispector)


Eu achei, sim, uma nova amiga. Mas você sai perdendo. Sou uma pessoa insegura, indecisa, sem rumo na vida, sem leme para me guiar: na verdade não sei o que fazer comigo. Sou uma pessoa muito medrosa. Tenho problemas reais gravíssimos que depois lhe contarei. E outros problemas, esses de personalidade. Você me quer como amiga mesmo assim? Se quer, não me diga que não lhe avisei. Não tenho qualidades, só tenho fragilidades. Mas às vezes [...] tenho esperança. A passagem da vida para morte me assusta: é igual como passar do ódio, que tem um objetivo e é limitado, para o amor que é ilimitado. Quando eu morrer (modo de dizer) espero que você esteja perto. Você me pareceu uma pessoa de enorme sensibilidade, mas forte.

Você foi o meu melhor presente de aniversário. Porque no dia 10, quinta-feira, era meu aniversário e ganhei de você o Menino Jesus que parece uma criança alegre brincando no seu berço tosco. Apesar de, sem você saber, ter me dado um presente de aniversário, continuo achando que o meu presente de aniversário foi você mesma aparecer, numa hora difícil, de grande solidão.

Precisamos conversar. Acontece que eu achava que nada mais tinha jeito. Então vi um anúncio de uma água de colônia da Coty, chamada Imprevisto. O perfume é barato. Mas me serviu para me lembrar que o inesperado bom também acontece. E sempre que estou desanimada, ponho em mim o imprevisto. Me dá sorte. Você, por exemplo, não era prevista. E eu imprevistamente aceitei a tarde de autógrafos.

Sua, Clarice. (Carta á Olga Borelli)

domingo, 7 de dezembro de 2008

Eu, bilhetinho azul. Deixei.

Estou ansiosa. Não paro de balançar minhas pernas.Meus dedos dos pés estão frios, mesmo estando de meias.Mordo os lábios, estou esperando uma ligação de alguém,alguém, algo que tire-me do tédio de minha pacata vida.
Vida pacata,.. acordo sozinha antes mesmo que meu velho despertador movido a ferrugem de uma pilha posso fazer seu barulho diário.Café frio, de ontem. Sentada a minha cadeira de balanço, vejo de minha varanda toda uma São Paulo. Estou fora do ritmo, pensei. Fecho a porta balcão, encostada a ela olho meu pequeno apê, coço meu cabelo eu precisa lava-lo.
Ligo meu rádio, fecho os olhos e passo os dedos sobre meus CD's, minha escolha será uma surpresa.
Duffy, 1º faixa Warwick Avenue.
Deprê mas é bom, gostoso de ouvir.

'I' m leaving you for the last time baby
You think you are loving
but you don't love me
and I've been confused
outta my mind lately
you think you are loving
but I want to be free, baby'

Eu canto gritando em meu inglês dotado de erros, mas com paixão, de pijamas e meias que estão sendo jogadas ao ar. Vou despindo-me á caminho do banheiro.
Nua, sentada a beira de minha cama revirada pelos lençois, eu choro, com minha cabeça entre minhas mãos com unhas roídas. Levanto, sem secar minhas lágrimas. Abro meu guarda-roupas visto-me como mulher avassaladora que agora serei.
Abro a porta da sala e antes de sair dou uma ultima olhada de soslaio e saio.
O telefone tocou, sem que eu soubesse. Não voltei para atende-lo.