O velho relógio de madeira pendurado na velha e mofada parede, badalou onze vezes, o que soou dentro da minha jaula de vidro um som oco e rouco. Um compasso desde... Desde sempre. O Relógio estava lá, e marcava lentamente minha vida na jaula de vidro. Através do vidro eu via, arvores mexendo-se vagarosamente de um lado para o outro, uma dança bem compassada, o vento deve estar levemente quente e adocicado.
Outra vez a insonia. Era esta terrível e barulhenta quietude, não me deixava dormir desde. Desde sempre.
E minha pequena jaula, hoje estava iluminada. Pela luz celestial.
Fiz minha prece ao Deus grande e redondo, e num céu límpido e obscuro, quase um buraco negro no qual eu me perco todas as noites.
Quero dançar, assim como as arvores. Eu vou fugir. Decidi me libertar, vou quebrar este estúpido vidro. Joguei-me (de olhos fechados) contra o vidro para quebra-lo, o vidro partiu-se. Quando percebi que estava fora do vidro, que a jaula já não me prendia, senti-me sufocando, sufocando. Era o ar adocicado, da primavera, da liberdade. O relógio badalou. Aquela era a liberdade, doce e mortal. Eu não consiguiria inspirá-la, eu já estava morta na décima segunda badalada do relógio velho na velha e mofada parede.
O velho relógio continuou. Tic tac. Tic tac.