sábado, 4 de dezembro de 2010

Eclipse Oculto

Nosso amor
Não deu certo
Gargalhadas e lágrimas
De perto
Fomos quase nada
Tipo de amor
Que não pode dar certo
Na luz da manhã
E desperdiçamos
Os blues do Djavan...
Demasiadas palavras
Fraco impulso de vida
Travada a mente na ideologia
E o corpo não agia
Como se o coração
Tivesse antes que optar
Entre o inseto e o inseticida...
Não me queixo
Eu não soube te amar
Mas não deixo
De querer conquistar
Uma coisa
Qualquer em você
O que será?
Como nunca se mostra
O outro lado da lua
Eu desejo viajar
Do outro lado da sua
Meu coração
Galinha de leão
Não quer mais
Amarrar frustação
O eclipse oculto
Na luz do verão...
Mas bem que nós
Fomos muito felizes
Só durante o prelúdio
Gargalhadas e lágrimas
Até irmos pro estúdio
Mas na hora da cama
Nada pintou direito
É minha cara falar
Não sou proveito
Sou pura fama....
Não me queixo
Eu não soube te amar
Mas não deixo
De querer conquistar
Uma coisa
Qualquer em você
O que será?
Nada tem que dar certo
Nosso amor é bonito
Só não disse ao que veio
Atrasado e aflito
E paramos no meio
Sem saber os desejos
Aonde é que iam dar
E aquele projeto
Ainda estará no ar...
Não quero que você
Fique fera comigo
Quero ser seu amor
Quero ser seu amigo
Quero que tudo saia
Como som de Tim Maia
Sem grilos de mim
Sem desespero
Sem tédio, sem fim...
Não me queixo
Eu não soube te amar
Mas não deixo
De querer conquistar
Uma coisa
Qualquer em você
O que será?

(Caetano Veloso)

O Caderno

Parte II
Aquele caderno velho e surrado, destoava dentre as coisas delas, observei. Estamos começando uma nova fase, ela disse enquanto fechava a porta do elevador, no seu carro duas caixas lacradas com escrito 'mudança', você leva a mais pesava pra mim ela disse sorrindo eu levaria o mundo nas costas se ela assim pedisse, com aquele sorriso, meu coração palpitava minhas mãos suavam frio estava diante de um abismo no qual mergulhava com facilidade e feliz, por ela.

terça-feira, 26 de outubro de 2010

O Caderno

Parte I
Descobrir quem se esconde.
Por trás das linhas escritas num caderno velho de capa vermelho sujo,
de letra delicada e apressada, paginas paginas, surradas, parte delas sujas de cinzas - de cigarro e dela - lágrimas marcam as palavras doloridas. No caderno velho de capa vermelho sujo, pequenos segredos, desejos, frustrações amorosas, contados em menores particularidades.
[...]eu sentia era em mim que suas mãos tocavam e acariciavam as costas, seu rosto junto ao meu sentia sua respiração tépida e ofegante, beijava me a nuca o pescoço a boca num beijo com sabor pecaminoso[...]
Fatalmente acordo, gozando sensações daquele delicioso sonho, fumo cigarro sobre cigarro e a noite avança quente e silenciosa, enquanto observo a cidade pela janela.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Caros amigos

Pequenos detalhes importarão. Ação. Quero ação.
Conquistar o mundo. Cada dia com um plano,
uma saída de mestre nas ruas sem aparente saída.
Encarar o mundo de peito aberto será mais fácil,
muda-lo ou conquista-lo.
Pensamentos tortos e perdidos assim como eu.

- Somos humanos!
E à nossa juventude, um brinde.
Ainda há esperanças, Caros amigos.






We wear our scarves just like a noose
But not 'cause we want eternal sleep
And though our parts are slightly used
New ones are slave labor you can keep

We're living in a den of thieves
Rummaging for answers in the pages
We're living in a den of thieves
And it's contagious

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Carlos Drummond de Andrade

Um escritor nasce e morre

I

Nasci numa tarde de julho, na pequena cidade onde havia uma cadeia, uma igreja e uma escola bem próximas, umas das outras, e que se chamava Turmalinas. A cadeia era velha, descascada na parede dos fundos, Deus sabe como os presos lá dentro viviam e comiam, mas exercia sobre nós uma fascinação inelutável (era o lugar onde se fabricavam gaiolas, vassouras, flores de papel, bonecos de pau). A igreja também era velha, porém não tinha o mesmo prestígio. E a escola, nova de quatro ou cinco anos, era o lugar menos estimado de todos. Foi aí que nasci: Nasci na sala do 3 ° ano, sendo professora D. Emerenciana Barbosa, que Deus tenha. Até então, era analfabeto e despretensioso. Lembro-me: nesse dia de julho, o sol que descia da serra era bravo e parado. A aula era de geografia, e a professora traçava no quadro-negro nomes de países distantes. As cidades vinham surgindo na ponte dos nomes, e Paris era uma torre ao lado de uma ponte e de um rio, a Inglaterra não se enxergava bem no nevoeiro, um esquimó, um condor surgiam misteriosamente, trazendo países inteiros. Então, nasci. De repente nasci, isto é, senti necessidade de escrever. Nunca pensara no que podia sair do papel e do lápis, a não ser bonecos sem pescoço, com cinco riscos representando as mãos. Nesse momento, porém, minha mão avançou para a carteira à procura de um objeto, achou-o, apertou-o irresistivelmente, escreveu alguma coisa parecida com a narração de uma viagem de Turmalinas ao Pólo Norte.


É talvez a mais curta narração no gênero. Dez linhas, inclusive o naufrágio e a visita ao vulcão. Eu escrevia com o rosto ardendo, e a mão veloz tropeçando sobre complicações ortográficas, mas passava adiante. Isso durou talvez um quarto de hora, e valeu-me a interpelação de D. Emerenciana :


- Juquita, que que você está fazendo?


0 rosto ficou mais quente, não respondi. Ela insistiu :


- Me dá esse papel aí. . . Me dá aqui.


Eu relutava, mas seus óculos eram imperiosos. Sucumbido, levantei-me, o braço duro segurando a ponta do papel, a classe toda olhando para mim, gozando já o espetáculo da humilhação. D. Emerenciana passou os óculos pelo papel e, com assombro para mim, declarou à classe:


- Vocês estão rindo do Juquita. Não façam isso. Ele fez uma descrição muito chique, mostrou que está aproveitando bem as aulas.


Uma pausa, e rematou:


- Continue, Juquita. Você ainda será um grande escritor.


A maioria, na sala, não avaliava o que fosse um grande escritor. eu próprio não avaliava. Mas sabia que no Rio de Janeiro havia um homem pequenininho, de cabeça enorme, que fazia discursos muito compridos e era inteligentíssimo. Devia ser, com certeza, um grande escritor, e em meus nove anos achei que a professora me comparava a Rui Barbosa.


A viagem ao Pólo foi cuidadosamente destacada do caderno onde se esboçara, e conduzida em triunfo para casa. Minha mãe, naturalmente inclinada à sobrestimação de meus talentos, julgou-me predestinado. Meu pai, homem simples, de bom-senso integral, abriu uma exceção para escutar os vagidos do escritorzinho. Ganhei uma assinatura do Tico-Tico, presente régio naqueles tempos é naquelas brenhas, e passei a escrever contos, dramas, romances, poesias e uma história da guerra do Paraguai, abandonada no primeiro capitulo para. alívio do Marechal Lopez.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Sou eu

Quando escrevo sinto me diante de um grande abismo, jogar me dentro dele tornasse um alivio, escrevo coisas que significam ou significaram pra mim e sinto que faz parte do meu MUNDO, que crio naturalmente, e é pra lá que corro seguindo meus pés que sabem o caminho, tão particular que seria impossivel pra mim usar comparativos para explicar lhe o quão meu é.

Rafaela.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Memoria Sensitiva II

Sente e não fique me olhando desse jeito, disse ela, acho que quero ser parecida com você quando tiver a idade, não seja tola você não será igual a mim, pensei que talvez fosse ciumes dela dizer algo assim, não deixou de ser um sonho pra mim disse a ela que , olhou pra mim e abriu um sorriso que até hoje não consigo descreve-lo como falso ou verdadeiro. Ela continuava a tricotar, sabia que não conseguiria ultrapassar aquela barreira, que era a falta do coração daquela mulher, a quem eu admirava. Era um grande mistério pra mim, ela. E por anos a mesma cena se repetia, eu sentava próxima a ela, observando-a tricotar, eu crescia e ela tornava-se mortal. Suas mão não eram mais tão agéis ante a lã, a cada tragada era tomada por um surto quase sem fim de uma tosse rouca.
Grande surpresa, não tornei me parecida com ela pensei ante o espelho, naquela tarde procurei a no quartinho de costura, ainda tinha o mesmo cheiro, o mesmo quebra luz, o mesmo cinzeiro, percebi que eu não era a mesma quando a velha que estava sentada na poltrona educadamente apontou me a poltrona a sua frente, sente se ela disse e antes que eu pudesse acomodar me continuou, falando sozinha como se estivesse, pode ser que não se pareça comigo e vai dizer a si mesma que talvez tenha sido melhor assim, mas devo discordar, e permanecerá um mistério como em meio a tantas diferenças você tornou-se igual a mim, e dizendo isso começou a tossir, tossir, tossir, e morreu. Levantei, dei um beijo em sua testa ainda quente, estendi a mão para alcançar na mesa bem ao lado do quebra luz, as agulhas de tricô.

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Luz dos Olhos

E eu gosto dela
E ela gosta de mim
Eu penso nela
Será que isso não vai ter fim?

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Memória Sensitiva I

Espiava pela porta entreaberta.
As janelas e cortinas estavam fechadas, a meia luz que iluminava o quarto de costura vinha do quebra luz que, estava em cima da mesinha, e sobre ela estava o seu cinzeiro.
Entrei no quartinho escuro e procurei por ela, estava sentada na poltrona o tricô em seu colo, o olhar perdido enquanto batia as cinzas do cigarro no cinzeiro, ainda não notara minha presença. Voltou a si, e o gesto que se segue encantava me sem que pudesse desviar o olhar, numa elegância nata sua mão leva a boca que espera o cigarro levemente entreaberta e traga sem que percebamos, apoia o cigarro no cinzeiro, sem levantar o olhar nem interromper o tricô diz, sabes que tem de bater pedir licença antes de entrar, respondo que sim eu bati, e continua a tricotar enquanto eu observo.

Continua.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Pequena Ilusões

Seria impossivel me apaixonar por ela.
Ela é bem séria, tem gestos bem suaves e delicados,anda sempre com certa incerteza com suas pernas finas, quando se senta cruza as pernas ou então levanta pernas abraçando-as junto ao peito,e isso faz com que se parece um criança com um olhar incompreensivel de quem esta num mundo alheio.
Quando ela ri - o que não é muito fácil - marca as bochechas e dá até vontade de rir também porque dá um certa satisfação vê-lá sorrindo.
Tem os cabelos mais claro, assim quase louro escuro; tem a pele bem clara não muito branca, gosto da mão dela com dedos finos.
Acho agora que seria bem possivel, me apaixonar por aquela menina de pensamentos longe e perfume doce, que exala quase um encanto, um pequeno feitiço de amor.
Um belo quadro, penso, e volto deseja-lá a distância deliciando me com pequenas ilusões.



Ao som de Cazuza "maior abandonado"

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Adorando pelo avesso

Precisava esquecer as juras de amor,estava decidida a esquecer e apostou consigo mesma, quando conseguir ver o fundo do copo como num passe de mágica esqueceria, o fundo de vários copos ela viu e nenhum deles apagou lhe as memórias - andou sozinha pelas ruas silenciosas, estava cansada não estava bêbada e por algum tempo se perguntou se não seria melhor ter perdido a consciência. Somente quando chegou em casa - depois de caminhar até o dia amanhecer e resolver pegar um táxi - sentou se na poltrona mas, percebeu que estava desconfortável sentada na poltrona quando deitou no chão gelado de seu quarto e encolhendo-se toda gemia, resistindo aquele vazio, a dor que apertava-lhe o peito, adormeceu chorando baixinho.
Acordou com o barulho surdo de passos, pode ver a sombra do homem que estava próximo a porta e olhava para ela tentando abrir a boca para dizer lhe alguns cliches de adeus, desistindo a sombra saiu pela porta entreaberta; levantou-se e olhando ao redor sentiu o frio e vazio.
Contudo sorriu, sorriso ironico quase amargurado.




Ao som de "Atrás da Porta" Elis Regina

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Doce Insanidade

Despiu-se ante o espelho, vagarosamente. A expressão dura quase severa de seu rosto abrandava se a cada descoberta, revelada pela carícia voluptuosa da amante que se perdera nos verões, há muito esquecidos.
Soltou os desgrenhados cabelos. Jogou se a cama já nua, contraindo os lábios gemendo baixinho e, quando o vento entrou sorrateiro pela janela aberta, ouriçou se a mulher.
Em seu quarto, onde somente a lua observava a espreita a mulher despia se e perdia se no insano prazer de ser.
Então amanhã, a mulher juntar-se-ia a normalidade.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Chá e Bolo de Fubá.

Agora o futuro era incerto.
Acordaria na manhã seguinte, e já de pé com os pés descalços no chão gelado lembraria. Não há o que fazer. Ninguém para dizer "bom dia" e para conversar durante o café ou para elogiar o bolo de fubá.
Então, levaria o cachorro para passear. Era tedioso. Olhou para o relógio e disse ao cachorro - como você é chato, seu tempo acabou - "como se ela fosse muito simpática" pensou o cachorro que preferiu abanar o rabo no caminho de volta pra casa.
E sentada na poltrona de seu pai, que ficava em frente a estante de livros e discos, tomou chá amargo e muito quente. Já tinha lido metade daqueles livros, e tinha dançado as músicas daqueles discos, com os pés sobre os de seu pai que era um ótimo dançarino, terrivelmente encantador de voz rouca e gentil apesar de estar quase sempre sério.
Quis avidamente dançar um daqueles discos, e colocou na vitrola, um disco escolhido ao acaso. Seus pés ainda lembravam dos passos, do ritmo, fechou os olhos e por um momento sentiu que seu pai a guiava na dança, como quando era apenas uma menina.
Percebeu que não dava para dançar sozinha, quando abriu os olhos. Voltou à poltrona, e ao chá amargo e agora frio. E pensou que com os anos ficaria assim como o chá, amarga e fria.