segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Helena

Nada acontece. E os dias são sempre iguais.

Somente de raiva eu choro, minhas lágrimas escorrem, são pequenas gotas de gelo. Chego a pensar se ainda vivo, se ainda em mim a vida habita, e eu?Será que eu habito a vida? Será que habito a vida de alguém? De quem?
Perco a noção, palavras proferidas por mim atingem somente a mim mesma, mortalmente, de meus ferimentos escorrem o tédio. Por mim o tempo passa, e seus efeitos em mim, são sentidos. Eu não passo pelo tempo, nem causo efeito algum sobre ele, nem sobre ninguém.
Minha história contarei as paredes, minha história. Histórias eu contarei, de como fui criança e cresci, e mulher feita, vários homens eu amei, e nenhum deles me amaram. Esperei durante algum tempo que algo, alguém, que me arrebatasse de mim mesma, perdida em minha sobrevida.
Palavras doces. Foi assim que uma velha amiga, que há pouco tempo conheço, pedia-me que lhe dissesse algo doce, perdi-me em meus pensamentos pensando naquilo, o que me impediu de continuar a ouvi-la. Quando voltei a mim, ela estava tirando de sua bolsa, um livro de capa vermelha, um vermelho já velho, as páginas daquele volume já haviam amarelado pelo tempo assim como eu, ela abriu em uma página determinada por um papel de bala. E começou a ler pra mim: “Exagerada toda a vida: minhas paixões são ardentes; minhas dores de cotovelo, de querer morrer; louca do tipo desvairada; briguenta de tô de mal pra sempre; durmo treze horas seguidas; meus amigos são semi-irmãos; meus amores são sempre eternos e meus dramas, mexicanos!”.
Voltei meus olhos para os dela, que me observavam curiosos. Dei um sorriso, sorriso livre de qualquer falsidade, da qual nossa sociedade vive. Foram os olhos dela que me retribuíram o sorriso, seus lábios fechados, demonstravam quererem segredar-me algo. Num gesto delicado e suave, ela colocou seus lábios ao lado de minha orelha e retirou meus cabelos passando seus dedos frios, pelo meu pescoço, causou um arrepio prazeroso. Sussurrou palavras apaixonadas, em um hálito fresco e doce.

Novamente senti um arrepio prazeroso quando, ela parou de sussurrar e pegou minha mão. Virei-me para ela, estávamos em um parque, muito verde, as grandes árvores se balançavam, com o forte vento quente de verão, o sol se punha atrás destas mesmas árvores e o céu estava de um azul límpido sem nuvens, e eu me senti como se estivesse acabado de acordar, minha visão um pouco embaralhada e esbranquiçada. Dei-lhe um beijo, segurei o rosto dela com minhas mãos e toquei os seus lábios, ela fechou os olhos para prolongar aquele momento. Levantei-me, deixe-a sentada de olhos fechados, e fui embora. Meus pensamentos seguintes..., eu não conseguia pensar, somente sentir; mas que belo estranho dia para se ter alegria.

5 comentários:

R e n a t a disse...

Sabe que este texto me emocionou antes mesmo que o postasse.
E também deve ter imaginado o sorriso que desatei ao ver o título, que tanto insisti para que fosse este. O ato de satisfazer meu pedido, palavras doces... sua palavras são doces, mesmo aquelas cheias de angústia, ainda assim são afetuosas, adoráveis.

Tocou fundo, acelerou, me pegou desprevenida quando me veio com estas palavras e assim decidi pegá-la de surpresa também, com meu comentário, espero ter conseguido.

E não pare de escrever... o doce de suas palavras não enjoam.
=* Rafa!

R e n a t a disse...

suas*

Ana disse...

Seus textos são lindos! E deixam minhas pernas moles.
auerhiuaerhiuaerh

Anônimo disse...

' mas que belo estranho dia para se ter alegria.'
Lindo Rafa
=)

Anônimo disse...

Fugi de mim mesma lendo o seu texto. Só queria que você soubesse isso. Beijo Rafa